// experimento · repertório

De Igual pra Igual

Matogrosso e Mathias · 1985

Filme do Cinema Impossível, projeto autoral e independente de Endrigo Almada, fundador da desigual.

De Igual pra Igual, de Matogrosso e Mathias, virou um filme noir de traição em cinema brasileiro dos anos 80. Com a autora oculta da canção escondida na cena.

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De Igual pra Igual é um clássico do sertanejo romântico que quase ninguém sabe ter nascido de uma mulher. Nós o transformamos num pequeno noir doméstico de 1985. Um marido de classe média vê, do próprio carro parado do outro lado da rua, a esposa descer do carro do amante e pegar um ônibus para casa. Ele não confronta. Vai para casa. Ela chega depois. Ele viu tudo. Da janela do carro. E levou pra casa o que aprendeu na rua.

A noite inteira é a lição: gesto a gesto, ele aprende a ferir sem sentir, do mesmo jeito que foi ferido. O filme fragmenta tudo em detalhes, à maneira de um quadro de Edward Hopper: o salto no asfalto molhado refletindo a luz de sódio, o batom borrado, os faróis se afastando, a mão dela na barra do ônibus, o olho dele no retrovisor. A distância entre os dois vira gramática de câmera, os rostos quase nunca se encontram inteiros.

A canção foi composta por Roberta Miranda, autora oculta na época, com um eu-lírico originalmente feminino transposto para a voz da dupla. O filme devolve a autoria em silêncio: o letreiro do ônibus que leva a esposa traz o nome dela, e o disco que trava na coda, repetindo "ser feliz, ser feliz", também é dela. Começa na autora, termina na autora.

O que testamos

Contar uma traição inteira sem uma única fala de confronto, deixando a violência morar no aprendizado noturno e no corte, não no grito. Testamos também esconder a homenagem à compositora dentro do cenário, para o espectador que olha duas vezes.

O que aprendemos

A luz de rua feia e verdadeira, a de poste de sódio, mata a cara de imagem sintética mais rápido que qualquer fotografia bonita. E a denúncia de gênero da canção fica mais forte devolvida como easter egg do que anunciada em texto: quem descobre que a autora estava ali o tempo todo sente a virada sozinho.

Estética

Cinema brasileiro dos anos 80, luz de sódio

Música

Matogrosso e Mathias

Ano da canção

1985

Formato

Reel vertical, filme de ~1min30

Direção

Endrigo Almada

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