// experimento · repertório
Gita
Raul Seixas · 1974
Gita, de Raul Seixas, virou um filme sobre a Forma Universal que a canção de 1974 escondia. Surrealismo sagrado brasileiro levado a sério.

Gita é o capítulo mais vertiginoso da Bhagavad Gita condensado em rock brasileiro. No mito, Arjuna pede que o divino revele sua forma verdadeira, e a resposta é ao mesmo tempo sublime e apavorante: eu sou o Sol, o Mar, o Sertão, o começo e o fim de todas as coisas ao mesmo tempo. Raul Seixas e Paulo Coelho traduziram isso para a língua do país em 1974 e abriram os braços num clipe pioneiro que quase ninguém decifrou na época.
O nosso filme faz a continuação visual que aquele clipe não teve fôlego técnico para fazer. É o Raul virando cosmos: a placa de contramão, o pesadelo, o sacrifício, o cárcere, tudo o que a letra enfileira como se fosse uma só entidade se revelando. A frase que guiou a direção é simples e assombrada. O Raul de 74 abriu os braços. Cinquenta e dois anos depois nós fomos ver o que tinha atrás.
Há uma descoberta que virou a espinha do projeto: as referências de surrealismo que buscamos por instinto são descendentes diretas da mesma linhagem visual que o clipe original perseguia meio século atrás. Não é réplica, é continuidade legítima. O filme não copia 1974, ele termina uma frase que ficou aberta.
O que testamos
Recriar a fisionomia de um artista muito conhecido numa fase específica, magro e marcado, sem cair na caricatura, e sustentar essa presença dentro de um mundo abertamente onírico, onde tudo pode se dissolver em outra coisa. Testamos também tratar a teofania sem leitura religiosa automática, ancorando na mitologia que a própria canção invoca.
O que aprendemos
O sobrenatural funciona melhor quando é continuidade, não citação. Ao amarrar o filme na descoberta arqueológica sobre o clipe original, a peça ganhou um chão histórico que a protege de parecer delírio gratuito. Honrar Raul aqui não era imitar 1974, era ter a coragem de mostrar o que ele só pôde sugerir.
Estética
Surrealismo sagrado, cores de 1974
Música
Raul Seixas
Ano da canção
1974
Formato
Reel vertical, filme de ~1min30
Direção
Endrigo Almada