// experimento · repertório

Comentário a Respeito de John

Vanessa da Mata e João Gomes · 1979

Filme do Cinema Impossível, projeto autoral e independente de Endrigo Almada, fundador da desigual.

Comentário a Respeito de John, na versão forró de Vanessa da Mata e João Gomes, virou um filme sobre a distância entre quem comentam e quem se é. Com Belchior escondido na cena.

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Comentário a Respeito de John é uma canção de Belchior, aqui na versão em forró de Vanessa da Mata com João Gomes. Nosso filme se chama, por dentro, "Os Comentários". É uma sucessão de pessoas comuns, a mãe, o dono do bar, o velho, o menino, a mulher do batom, cada uma construindo em voz alta o João que imagina. Todo mundo comenta o João. Ninguém andou com ele.

No fim, o João real aparece, e não é nenhuma das versões que inventaram para ele: é um homem livre, que decidiu a própria vida à revelia do que dizem. O filme é sobre a distância entre a pessoa e a fofoca sobre a pessoa, filmado num sertão dourado com textura uniforme de película, uma unidade de imagem que amarra todos os planos num só corpo.

A peça esconde a autoria de Belchior em plena vista: o disco "Era Uma Vez um Homem e Seu Tempo" encostado no muro enquanto o João escreve. Há ainda os óculos redondos de John Lennon caídos na neve, o luto velado que batiza o "John" da canção, e um verso famoso ("a felicidade é uma arma quente") que vira o escapamento quente de uma moto na contraluz, a arma que liberta em vez de matar.

O que testamos

Construir um personagem inteiramente pelo olhar dos outros, deixando o retrato verdadeiro para o último instante, e manter várias testemunhas visualmente consistentes no mesmo mundo. Testamos aplicar uma camada de película uniforme sobre todos os planos para fechar a unidade estética do curta.

O que aprendemos

Quando o público constrói o personagem junto, a revelação final pesa mais, porque desmonta a versão que a própria pessoa ajudou a imaginar. E esconder a autoria original dentro do cenário, em vez de creditá-la em texto, transforma quem reconhece Belchior num cúmplice, não num espectador.

Estética

Sertão dourado em película 35mm

Música

Vanessa da Mata e João Gomes

Ano da canção

1979

Formato

Filme horizontal 16:9, ~1min30

Direção

Endrigo Almada

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