// experimento · repertório
P do Pecado
Menos é Mais e Simone Mendes · 2024
P do Pecado, de Menos é Mais e Simone Mendes, virou um noir de gafieira de 1962 em tela dividida. Estreia do selo O Hit que Errou a Época.

P do Pecado inaugurou um selo dentro do laboratório: "O Hit que Errou a Época", que pega um sucesso atual e o reimagina numa década anterior. Aqui, um pagode de 2024 foi jogado numa gafieira de 1962, com película quente saturada e sensualidade contida. O que era hit de paredão virou noir de salão de baile.
O conceito se chama "Dois Telefones, Uma Pista". Dois amantes, cada um comprometido com outra pessoa, recebem uma ligação e caem na mesma gafieira fingindo que não se conhecem. A tela dividida é a tese: os gestos de abandono, tirar a aliança, mentir, voltar para a cama do parceiro, acontecem idênticos e simultâneos dos dois lados. A letra acusa que "o seu é bem maior que o meu"; a imagem desmente e prova que são o mesmo pecado. A divisória só desaparece num instante, quando os dois se tocam na pista, o único momento sem culpa.
O filme fecha em loop. De manhã, os dois telefones de casa tocam e ninguém atende, e a abertura e a coda repetem o mesmo ritual da aliança que sai e volta, sugerindo que isso se repete toda noite. Até o nome da casa noturna é um easter egg: o neon leva o nome do grupo.
O que testamos
Deslocar uma canção contemporânea para outra época inteira, com figurino, luz e cenário de 1962, sem trair a letra, e sustentar a tela dividida como argumento moral, não como truque visual. Testamos manter dois rostos reconhecíveis consistentes em quadros espelhados e simultâneos.
O que aprendemos
A tela dividida deixa de ser efeito e vira significado quando os dois lados dizem a mesma coisa ao mesmo tempo: a simultaneidade é a acusação. E transportar um hit atual para o passado revela camadas que a produção original nunca teve tempo de mostrar.
Estética
Noir de gafieira, tela dividida, 1962
Música
Menos é Mais e Simone Mendes
Ano da canção
2024
Formato
Reel vertical, tela dividida, ~1min30
Direção
Endrigo Almada