// experimento · repertório

Não Existe Amor em SP

Criolo · 2011

Filme do Cinema Impossível, projeto autoral e independente de Endrigo Almada, fundador da desigual.

Não Existe Amor em SP, de Criolo, virou um neo-noir urbano onde as paredes gritam e as pessoas são fantasmas. Um filme que nunca mostra o céu.

Hero frame de abertura de Não Existe Amor em SP
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Não Existe Amor em SP virou um neo-noir urbano com uma inversão no centro. Numa cidade de gente muda, quem grita é a parede. As pessoas são os fantasmas: azul-mercúrio, movimento arrastado, mudas, com pressa. Os muros é que estão vivos: foco cirúrgico, luz quente e suja, halation vermelha sangrando na imagem. O Criolo aparece em lampejos, identidade poética, o único corpo que a câmera trata como gente.

O filme fica no negativo de 2011 de propósito. Ele não oferece a resposta consoladora, porque a resposta pertence ao público, não a nós. Há uma regra de decupagem que ninguém percebe conscientemente mas sente o tempo todo: nenhum frame mostra o céu. Do primeiro ao último plano, tudo acontece abaixo da linha do horizonte. Ninguém olha para cima, nem quando o helicóptero passa, porque aqui ninguém vai para o céu. A única câmera que sobe, sobe pelo muro e corta antes de alcançar o azul.

Os detalhes carregam a cidade real. O labirinto de uma cena é uma galeria específica que o próprio Criolo já nomeou como ponto de encontro de sonhos. O letreiro doce de um postal só existe refletido de cabeça para baixo numa poça suja, com uma bituca boiando. O grito das paredes nunca vira palavra legível, porque o grito é sem palavra.

O que testamos

Inverter quem é vivo e quem é fantasma na linguagem visual, tratando os muros com mais presença que as pessoas, e sustentar uma regra invisível (nunca mostrar o céu) que organiza o filme inteiro sem nenhum letreiro explicando. Testamos abrir com um close impossível: o artista submerso até o pescoço na rua alagada de neon, sereno.

O que aprendemos

Uma metáfora funciona melhor na direção do que no texto: se "quem grita é a parede" virasse uma cara gritando no muro, seria kitsch; virou regra de foco e de luz. Deixar a resposta com a cidade, e não com o filme, manteve a peça honesta com a dureza da canção.

Estética

Neo-noir urbano, halation vermelha

Música

Criolo

Ano da canção

2011

Formato

Reel vertical, filme de ~1min30

Direção

Endrigo Almada

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