// experimento · repertório
The Sound of Silence
Simon & Garfunkel · 1964
The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel, virou um filme em preto e branco sobre dois mundos e três tipos de olhos. A escuridão como a única que ainda escuta.

The Sound of Silence vive na invasão de dois mundos. Um é o quarto: um banheiro de azulejo branco de 1965, luz de janela, onde a voz mora. Isso vem de um fato real, Paul Simon compôs a canção trancado no banheiro, no escuro, porque o azulejo fazia eco. O outro é a visão: névoa, borrão, um sonho que, como diz a letra, plantou suas sementes enquanto ele dormia. O banheiro de azulejo é o útero da música.
A gramática inteira do filme é sobre olhos, em três estratos. Os dois cantores, no quarto, têm os olhos fechados por escolha: são quem sente. A Velha Amiga, a escuridão com rosto de mulher que emerge do grão, é a única de olhos abertos, a única que encara a câmera: é quem escuta. E a multidão de homens de terno tem os olhos apagados, riscados à mão sobre o rosto, só a boca sobrevive: são as pessoas que falam sem dizer nada. A escuridão é a única que ainda escuta.
A regra da casa foi respeitada com rigor: a imagem nunca ilustra o verso que canta naquele segundo. E há uma caça escondida: a Velha Amiga aparece exatamente três vezes, no primeiro "Hello darkness", nítida no meio dos dez mil fantasmas, e submergindo antes do preto final. O comentário fixado convoca quem achou as três.
O que testamos
Construir um filme inteiro sobre uma única ideia visual, o olhar, dividida em três estados diferentes de personagem, e manter a canção sem dublagem literal, deixando a imagem andar em contratempo com a letra. Testamos um preto e branco pictorialista de longa exposição contra a nitidez que a imagem sintética entrega por padrão.
O que aprendemos
Dar rosto e regra ao silêncio, transformando a escuridão numa personagem que aparece um número exato de vezes, cria um jogo que segura o público além do primeiro impacto. O contrário do silêncio não é o som, é a escuta, e o filme inteiro cabe nessa distinção.
Estética
Preto e branco pictorialista, dois mundos
Música
Simon & Garfunkel
Ano da canção
1964
Formato
Reel vertical
Direção
Endrigo Almada